O “click” da chave girando, e o som do motor pulsando em um ronco baixo. O couro que reveste o volante inteiramente suado pela minha mão cansada. Me olho no retrovisor e ajeito o rayban e meus cabelos. O calor insuportavel desta época do ano castigando a lataria de todos os carros ali estacionados, e a cabeça dos menos previnidos. E este seria o meu caso, pois o cansaço me impediu de esticar o braço para o banco traseiro afim de alcançar meu surrado chapéu de vaqueiro.
Eu estava deixando a cidade para trás; deixando tudo que havia ali para trás. Juntando todas minhas tralhas no porta-malas do meu velho MavecãoV8, e seguindo uma estrada sem destino. Uma única parada obrigatória se fazia necessária, e era justamente onde eu me encontrava neste momento.
Eu simplesmente não posso mais suportar minha existência sem um rumo certo nesta cidade. Então antes sem rumo na estrada do que preso na mesmice do cotidiano de uma cidade cheia de frustrados.
Mas também não consigo deixar de amar esta mulher! Foi a única a quem me entreguei completamente em toda minha curta existência por aqui. Devo a ela, e a mim mesmo, uma satisfação e um convite.
Ali parado na porta me senti em transe, me imaginando ao volante, tendo ao lado a única pessoa em quem confio e amo plenamente; ganhando a estrada sob as rodas, e o azul do céu sobre o capô.
O suor corria pelas têmporas quando a abracei. E o abraço por apenas um instante, o qual me pareceu uma vida e mais, me fez querer ficar ali, protegido na certeza de um amor.
Dei as costas e enquanto ela voltava para o conforto do seu teto eu jurei não olhar para trás, levando comigo todo aquele amor e a saudade que já me apertava o peito. Me senti arrasado com a premonição de uma culpa que não tardaria a chegar, ainda sentindo o perfume daqueles seios em minhas mãos.
Voltando ao velho Maverick, bato os olhos na capa daquele livro velho atirado no banco traseiro, com o chapéu meio por cima. “Been down so long It looks like up to me”, de autoria de Richard Farina. Ganhei este livro de um amigo antes de partir. Só fico imaginando pelo título se este é o tipo de livro que vai me dar algum conforto nas noites frias de solidão que estão por vir.
O sol a meio, me lembrando que é hora de abastecer o meu motor, bem como o do carro. E então resolvo entrar em uma pequena lanchonete no centro antes de deixar a cidade. E não é de surpreender que o que eu levo no bolso não cubra sequer a refeição em um pequeno estabelecimento como aquele. Então acabo comendo apenas um misto quente. A metade de um, para ser mais exato. A viagem não tem destino, mas a fome tem, e sempre volta no mesmo horário.
Deixando a cidade para trás tudo o que consigo avistar é o verde flamejante ao lado, negro e amarelo deslizando ao centro, e o lento azul do firmamento. Nada como um acidente aqui e ali para te lembrar que é sempre bom manter os olhos na estrada, e a cabeça longe da “pequena”. O toca-fitas empoeirado me ajuda a manter a cabeça afastada da saudade. porem dados momentos apenas aperta mais o peito. Como quando o som familiar de Crystal ship, dos Doors chega para me dar a certeza de ainda manter uma parte de mim no passado. Mas ali sentado com a mão direita no volante, e a esquerda atirada pra fora da janela, dedilhando o teto do carro e sentindo o vento nos cabelos e o roncar do carburador, tragando a fumaça do Lucky Strike, fico imaginando se não é melhor assim mesmo. Apenas a estrada e eu.
E foi em uma destas noites quentes na estrada que avistei aquela enorme cidade faiscando luzes multicolores por toda parte, com suas prostitutas andando pra cima e pra baixo, bares lotados de pessoas relaxando após um àrduo dia de trabalho, casas de azar esbanjando a insatisfação dos fracassados, e bebados nas sarjetas com cães lhes lambendo a face.
Encantado em meio a tudo aquilo acabo me alojando ali por uns três ou quatro dias, dormindo no carro quando o sono clama por silêncio e escuridão. E nestes dias levantei alguma grana por meios escusos, e por meio destes bicos acabei conhecendo um outro tipo de viagem.
Era L’America, o maior antro de perdição daquela cidade.
Ali eu não recebia apenas grana como pagamento, como você bem deve imaginar. Boa parte eu vendia, mas mesmo assim sobrava algum pra consumo próprio.
Os efeitos variam de pessoa para pessoa, já que a principal característica é a potencialização da personalidade do individuo. E bem, o que acontecia comigo era uma enorme euforia. Realmente muito estranho, devo dizer, já que sou um ser completamente introspectivo. O mundo a minha volta se tornava tão lento, e eu, tão rápido. Dançava feito um raio, com a música chegando aos meus ouvidos de maneira abençoada. Músicas que eu jamais havia escutado em minha vida, se tornavam previsíveis, uma nota chegava aos meus ouvidos, e eu já sabia que nota viria logo após.
Nestas horas eu bebia qualquer coisa que colocassem em minhas mãos, mas era por água que eu clamava.
Na alvorada acordei ainda cambaleante e com os dentes serrados. Atirado no chão, ao lado da minha cama de molas estava um sujeito que eu conheci naqueles dias insanos. Um novo amigo talvez. Levantei e fui jogar uma água no rosto, peguei minha camisa e saí do hotel em que eu havia passado as duas últimas noites.
E foi sorvendo um pouco de café preto que decidi deixar aquela cidade logo em seguida. Então voltei ao hotel para juntar os trapos, e o sujeito já estava de pé. Lhe disse que estava partindo, e me senti surpreso quando ele me pediu uma carona, dizendo que desejava largar aquela vida de loucuras na cidade e se perder daquela sociedade adoecida. Eu concordei, contanto que ele dividisse as despesas com a gasolina. Afinal um pouco de companhia na estrada não seria de todo mal.
Fiz os últimos acertos e preparei provisões para um curso sem previsão de paradas por kilometros sem fim. E então partimos com o sol do meio dia queimando o negro da lataria após uma gorda refeição a base de bacon e ovos. Tudo ia bem nos dois últimos dias de viagem, até que em uma noite, acampados abaixo de um platano, meu companheiro de viagem me mostra um punhado daquelas pastilhas bastante familiares. “Sobraram algumas”, ele me disse. “Não vai fazer mal algum tomar uma nesta noite abafada”. E enfim tomamos uma cada um, empurrando goela abaixo com um gole de whisky barato.
Os sonhos começaram a surgir com o céu estrelado girando sobre minha cabeça. Era a minha “pequena” se esfregando em mim? Não podia ser verdade! Mas era o que meus olhos me mostravam, muito embora meu cérebro se negasse a aceitar como verdade. No meio do conflito o sonho se tornou pesadelo, e a “pequena” se transformou no meu barbudo e fétido companheiro de viagem. “Seu filho da puta”, eu disse, jogando ele para trás com um soco bem encaixado no maxilar.
Agarrei minhas coisas e atirei tudo no porta-malas. Pisei fundo e deixei aquele sacana, ainda pirando no seu sonho desvairado, naquele lugar completamente desolado.
Com um estranho peso na consciência eu segui adiante, sem rumo. Ainda chapado, perdido em pensamentos e decisões erradas, sem saber o que viria pela frente, quando as indagações começaram a se materializar na minha mente. Será que fiz bem em deixar o cara abandonado no meio do nada? Será que fiz bem em deixar a minha garota para trás? Será que estou desperdiçando minha vida seguindo assim feito um vagabundo?
Foda-se tudo! Pois apenas o peso do meu pé no acelerador tem a resposta certa para me dar. O acelerador pressionando e exigindo uma resposta do motor, e o rádio com suas estranhas ondas reverberando no meu crânio, até que um conhecido blues começou a tocar, falando em uma vida desgarrada sem arrependimentos. E tudo começou a fazer sentido. Nada de arrependimentos! Apenas a estrada à frente!
Nuvens negras e pesadas entrecortadas por relâmpagos começaram a se impor onde a pouco o sol nascente tentava se fimar. Aqueles delírios que me trouxeram a visão da pequena estavam me perturbando um bocado. E acho que foi isso que me levou a aceitar a idéia de retornar e dar uma carona para aquele filho da puta até algum posto de gasolina.
A tempestade teve inicio no momento em que dei meia volta. Deus, como eu amo o cheiro de gotas de chuva evaporando no asfalto quente! Até parecia mesmo que a decisão agora tomada enfim era a correta!
Borrões incolores eram jogados de um lado ao outro no para-brisa, e nada mais importava; apenas a longa e reta estrada a frente, e não o destino!
Avistei o descampado e manobrei para perto de onde havíamos acampado, mas não tinha sequer sinal do camarada. Talvez tenha ido a pé até a estrada e conseguido uma carona de volta para a cidade. Mas assim tão rápido em um lugar tão deserto quanto aquele?
Estava prestes a desistir da busca e retornar ao carro quando o som de passos na lama, confundido com o barulho da chuva batendo no capim chegou aos meus ouvidos. Virei o olhar sobre o ombro esquerdo, mas então já era tarde demais.
Um baque, e eu fui com tudo ao chão, batendo a cara em uma poça. Um sapo coaxava a alguns passos de distância, me olhando diretamente nos olhos, quando o calor do sangue desceu pela minha nuca e nariz.
Recebi aquele calor como se fosse o calor dos seios da minha pequena lá naquela distante cidade a dias perdida para trás. Será que eu devia ter voltado? Será que o sujeito teve culpa, alucinado nos seus pensamentos, assim como eu nos meus?
Sei dizer apenas que não veria mais a garota que fumentava meus pensamentos. Que não pisaria mais no acelerador do Maveco ganhando chão a toda velocidade. E que meu corpo jazia estirado em meio ao verde capim e as folhas do platano pintadas em carmesim. O bico de uma bota tomou o lugar que antes era do sapo que me observava e num instante se dirigia ao carro.
Quem estava certo e quem estava errado?
Cada qual toma uma decisão na vida e nunca se sabe a que ponto este rumo há de nos levar.
Não eramos dono da verdade. E o que importa, é a viagem!




